Eles querem salvar o mundo

Eles querem salvar o mundo

Maryanna Nascimento e Priscila Santos

Um cientista nada maluco, uma professora comovida com o discurso do Papa Francisco e um ambientalista que faz psicologia. Esses três personagens da UFBA acreditam que, sim, é possível salvar o mundo de uma catástrofe ambiental. Eles dedicam parte das suas vidas à pesquisa científica e ao voluntariado, enxergando na ciência a possibilidade de gerar impactos positivos, deixando uma contribuição significativa a curto, médio e a longo prazo.

Cientista nada maluco

Pesquisa de Emerson Andrade utiliza microalgas como fonte de energia (Foto: Priscila Santos)

“Faça uma reverência porque elas são a origem da vida, da sua vida”, disse com entusiasmo Emerson Andrade assim que entrou no Laboratório de Bioenergia e Catálise (Labec) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para ver a ‘origem da vida’ da qual ele se referia era preciso encaixar os olhos nas lentes oculares de um microscópio. Lá, com a licença do pesquisador, se via algo indecifrável para a maioria dos estudantes de jornalismo: as microalgas.

Escondido há oito anos no segundo andar da Faculdade Politécnica, depois de um incêndio reduzir a cinzas o laboratório do Instituto de Química da universidade, o cientista nada maluco desenvolve desde então a pesquisa ‘Valorização da biomassa de microalgas – Bioenergia e biorrefinaria’. Diferente da ficção científica, o pesquisador não pode ser chamado de louco, afinal as habilidades e conhecimento que ele tem não são usados para planos malignos ou catástrofes, muito pelo contrário.

Traduzindo, ele estuda como utilizar as microalgas como fonte de energia, em substituição ao uso de combustível fóssil. Entre as vantagens, ele enumerou três: elas capturam carbono como as plantas e fazem fotossíntese; só precisam de água, luz e nutrientes, dispensando a terra para o seu cultivo e a produtividade chega a ser centenas de vezes maior do que as plantas, já que em 24h se multiplicam.

Apesar de concluir que a biomassa de microalgas tem um potencial de inovação e pode produzir de etanol a gasolina, o pesquisador atualmente vive um impasse com a pesquisa. Seria seguro publicá-la ou registrar a sua patente? Se publicar, como ele mesmo diz, “ou vão me sequestrar ou vão pegar o conhecimento e patentear”. Caso aconteça a segunda opção, ele teme que a pesquisa caia nas mãos de alguma multinacional e que ela o patenteie e enterre os resultados ou ainda se aproprie disso e coloque em uma “lógica capitalista”. E por que não patentear por conta própria? O professor explica que seria uma tentativa de proteger a sua pesquisa, mas o custo é caro e a universidade não tem uma boa estrutura para isso. “E se isso acontecer, vamos patentear e guardar? Quero que isso seja usado para a sociedade”.

Com um investimento atual de mais de R$ 4 milhões e a colaboração de uma equipe de 15 alunos, Emerson sabe que a substituição de combustíveis fósseis por uma forma de energia limpa, como as microalgas, não será de uma hora para outro porque isso mexe diretamente com o mercado, porém, os olhos brilhando não deixam dúvidas de que Emerson realmente é apaixonado pelo que faz. Apesar de cinco pós-doutorados, o professor de 58 anos tem na ponta da língua toda a sua trajetória. Aos 14 anos, ele começou a estudar química na Escola Técnica do Barbalho, depois fez Engenharia Química na Ufba, especialização, mestrado, doutorado. Quem olha um Lattes tão pomposo não imagina que se trata daquele homem de olho azul combinando com a camisa, óculos de armação preta, cabelo grisalho e pé machucado.

De Jacobina para o mundo

Aluno de psicologia da UFBA e cofundador do Projeto Sinergia Solar , João Raphael (Foto: Caio Paganotti/Greenpeace)

É impossível não se perguntar: o que um estudante de psicologia está procurando na área ambiental? A inquietação passa rápido quando João Raphael Gomes explica com as próprias palavras o motivo. “Estamos no extremo climático e isso causa um impacto social muito grande. Seca, devastação, tufões, tornados, fenômenos naturais que se intensificam com as mudanças climáticas e isso causa uma grande urgência nas pessoas. Imagina a necessidade psicológica que elas têm para se reerguer, voltar para a rotina”, justifica.

João entrou na UFBA em 2011, no Bacharelado Interdisciplinar de Humanidades. Na época, ele se deparou com a psicologia e não largou mais, mas não deixou de lado o seu ativismo pelas causas ambientais que começou de fato um ano antes, quando ele conheceu a organização internacional 350.org. O motivo de ter se aproximado da associação, surgiu há mais de 300 quilômetros de Salvador, em Jacobina.

Segundo o estudante de psicologia, ter nascido no sertão foi um fator determinante para que ele se interessasse por questões ambientais. “Lá (em Jacobina) a questão da seca era muito forte e, apesar de ser um fenômeno natural, com as mudanças climáticas isso se intensificava”. Essa percepção começou a ficar forte quando ele tinha sete anos e ainda morava na cidade. Vindo para capital e intensificando os estudos na área, João descobriu que a seca poderia ser uma solução e não um problema. “O sol intenso é ótimo para energia solar”, concluiu.

Hoje, com 26 anos, ele é cofundador do Projeto Sinergia Solar. Isso foi possível porque em 2015 João foi convidado pela Greenpeace, organização ambiental não governamental, para um treinamento e instalação de placas solares em duas escolas públicas de outros estados. Com a experiência, ele se juntou ao conhecimento teórico de Gustavo Alonso Muñoz, professor de Engenharia Ambiental e Sanitária na Universidade Salvador (Unifacs), e deu início ao projeto.

Com o Sinergia, João bate de porta em porta nas escolas públicas estaduais e municipais para apresentar aos estudantes sobre o uso da energia solar. Segundo ele, a economia poderia ser de R$ 6 mil nas contas se as escolas aderissem às placas solares. Apesar do preço alto, em cerca de 4 a 5 anos há o retorno e o investimento passa a dar lucro e pode ser disponibilizado para suprir outras necessidades dos alunos.

Diante da sua disposição, João Raphael em breve viajará para a Alemanha a convite da Engajamundo – organização que insere a juventude em negociações internacionais, para participar da 23ª Conferência das Partes (Cop 23) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima.

Uma professora que sempre quis

Ao longo da sua carreira acadêmica, enquanto docente, a professora do Instituto de Química da UFBA Zênis Novais da Rocha dedicou a maior parte do tempo à pesquisa científica, no entanto, a vontade de ir além das linhas de um artigo científico sempre a inquietou, só faltava uma ideia. Certo dia, ao assistir um pronunciamento do Papa Francisco sobre a necessidade de todos os fiéis terem um olhar atento para as questões ambientais, eis que… Eureka! Zênis entendeu naquele momento que ela poderia deixar a sua parcela de contribuição a favor daquela causa.

O projeto de extensão batizado carinhosamente pela professora por Compostagem Francisco, em homenagem ao Papa, começou em agosto de 2015  sediado na parte detrás do Instituto de Química da Ufba. Com o auxílio de uma betoneira, um triturador de resíduos e uma balança de precisão, os restos de alimentos do Restaurante Universitário do Campus de Ondina, das cantinas do Instituto de Geociências e Biologia e da Faculdade de Arquitetura  são transformados em adubo orgânico.

“Eu sempre quis fazer um projeto de extensão, algo que eu pudesse ver na prática os resultados, mas nunca tinha uma ideia”, diz Zênis Rocha, pesquisadora do Instituto de Química da UFBA

Durante os dois anos de existência do projeto, a professora se confrontou com um momento que poderia acarretar o fim da compostagem. Acontece que para realizar o processo era necessário adquirir um  produto fabricado por uma empresa do estado de Minas Gerais e em determinado período  houve uma interrupção do fornecimento por parte da firma. Seria esse o fim do projeto? Não mesmo, a docente resolveu usar suas habilidades e conhecimentos para a produção de um novo produto para substituir o anterior. O resultado? “Desenvolvi um produto que se mostrou mais eficaz que o anterior, que  e reduziu o tempo de produção de 3h para 40 minutos”.

Empreendedora, Zênis não deixou de aproveitar a oportunidade e conseguiu reunir forças para realizar o que antes era apenas uma vontade em algo real, capaz de gerar benefícios que transcendem os portões da UFBA. Os 800 kg de adubo produzido semanalmente tem destino certo; são fornecidos para  a Superintendência de Meio-Ambiente e Infraestrutura (Sumai), por meio da Coordenadoria de Meio-Ambiente e também para a Escola Parque, localizada no bairro de Caixa D’Água.

Apesar de não falar muito, o amor da professora  pelo que faz é nítido e consegue mobilizar todos os 16 alunos voluntários, de distintas áreas de formação, a participar e se empenhar no projeto. “Eu sempre quis fazer um projeto de extensão, algo que eu pudesse ver na prática os resultados, mas nunca tinha uma ideia”, comentou. A ideia pode até ter sido do papa, mas o que vale uma ideia sem sua realização, não é mesmo?