Smart Cities: Salvador implanta iniciativas com internet das coisas, mas projetos não são integrados

Smart Cities: Salvador implanta iniciativas com internet das coisas, mas projetos não são integrados

Apesar das iniciativas estarem funcionando com o apoio de órgãos governamentais, as ações não fazem parte de um plano integrado

Ana Cely Lopes e Júlia Vigné

Se você é um morador da cidade de Salvador e já passou pelo Vale dos Barris, Avenida Garibaldi e Avenida Antônio Carlos Magalhães, já se deparou com um dos projetos que buscam tornar a capital baiana uma cidade “mais inteligente”. Trata-se de 88 semáforos “espertos”,  que possuem autonomia para medir a circulação dos veículos e cronometrar os melhores momentos para realizar as paradas. Implantada pela Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) em  maio de 2017, a ação faz parte de iniciativas que utilizam a denominada Internet das Coisas para facilitar a gestão pública e experiência de vida na cidade.

Se a internet já foi, por si só, uma mudança absurda na vida humana, capaz de trazer centenas de informações em segundos, a Internet das Coisas (IoT) chega para mudar a relação com os objetos e aparelhos eletrônicos utilizados do dia-a-dia. “As coisas/objetos tornam-se capazes de interagir e de comunicar entre si e com o meio ambiente através do intercâmbio de dados”, explicou o pesquisador André Lemos no artigo “A Comunicação das Coisas: Internet das Coisas e Teoria Ator-Rede” de 2013. Para isso, são desenvolvidas pesquisas nas áreas de inteligência artificial e da nanotecnologia.

Uma das aplicações mais interessantes da IoT é no espectro da cidade, com objetos e coisas que podem auxiliar a vida da população. Nesse sentido, as cidades que utilizam IoT, processam e computam os dados e planejam a gestão a partir disso, são consideradas Cidades Inteligentes. O Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (Lab404) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) mapeou quatro grupos de iniciativas de Internet das Coisas aplicadas em Salvador.

De acordo com o pesquisador e doutorando em Comunicação Raniê Solarevisky, membro do Lab404, o trabalho de mapeamento dos projetos de IoT que buscam melhorar a “inteligência” da cidade começou há pouco mais de seis meses. Foram encontrados quatro conjuntos de ações. A mais antiga é o projeto de Rede de Monitoramento do Ar, desenvolvido pela empresa Cetrel, que presta serviços de análise ambiental, em parceria com a prefeitura de Salvador. Foram implantadas estações em diversos locais da cidade, que medem temperatura e emissão de gases tóxicos. Os dados são processados, transformados em boletins, que são enviados para órgãos públicos e apresentados à população por meio de totens nas principais vias da cidade.

“A cidade constrói inteligência de forma espontânea. São diversas iniciativas que pipocam”, explica o pesquisador Raniê Solarevisky.

Em 2016, a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba) começou a implantar no sistema elétrico da capital centenas de sensores inteligentes que monitoram eventos nas linhas de alta tensão. Desta forma, diversas informações são passadas ao órgão sobre as linhas que sofreram queda, quais estão sendo fraudadas por meio de “gato” e qual ambiente dentro de determinada residência está utilizando mais energia.

Por conta da topografia acidentada de Salvador, que a torna mais propícia para ocorrência de  erosão, deslizamentos e assoreamento, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Defesa Civil de Salvador implantaram cerca de 100 sensores nas encostas de Santo Antônio Além do Carmo, capazes de indicar deslizamentos. A preocupação ocorre principalmente no inverno, em que as chuvas são mais constantes. Para medir o nível de precipitação na cidade, pluviômetros foram instalados. Todos os dados são cruzados e enviados para um centro e, em caso de um deslizamento iminente, uma sirene toca e alerta os moradores das encostas.

A mais recente ação, realizada em maio de 2017, foi a instalação de 88 semáforos inteligentes em diversos, que automaticamente se adequam ao fluxo de carros na vida. A Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) é a responsável pela iniciativa. Solarevisky explica que apesar das quatro ações funcionarem, elas não necessariamente representam uma melhoria na qualidade de vida dos baianos ou a erradicação de um problema.

Isso porque “há questões culturais envolvidas que não são resolvidas simplesmente com a aplicação de uma tecnologia”, disse. Os semáforos inteligentes, por exemplo, funcionam de forma autônoma e os pedestres devem apertar um botão na hora que quiserem atravessar a faixa. “A vandalização de alguns interruptores, por exemplo, impossibilita a passagem dos pedestres”, falou Solarevisky. Ou seja, apesar de inicialmente funcionar para o trânsito, a ação nem sempre funciona para os que estão à pé.

Uma outra questão apontada pelo pesquisador é que as iniciativas não fazem parte de um plano específico para ‘aumentar’ a inteligência da cidade. “A cidade constrói inteligência de forma espontânea. São diversas iniciativas que pipocam”, declarou Solarevisky. Ou seja, os dados não são compartilhados entre os órgãos ou cruzados, com objetivo de melhorar a administração pública.  

A reportagem do ID 126 entrou em contato com a prefeitura e o governo do estado, com objetivo de saber se há ou não um planejamento para tornar Salvador uma Cidade Inteligente. Em nota, a Companhia de Governança Eletrônica de Salvador (Cogel), órgão vinculado a prefeitura,  informou que o “Programa de Metas Salvador 2017-2020” está em fase final de elaboração e que incorpora o conceito de cidade inteligente. “Tem como foco aumentar a competitividade e gerar bem-estar à população”, consta no texto.

As ações que já foram implantadas não fariam parte do plano. Sobre o apoio às pesquisas na área, a prefeitura ressaltou que está aberta a co-criação por meio de parcerias com centros de pesquisas e a academia. Solarevisky discorda, apontando que há uma falta de contato entre a produção dos pesquisadores e a gestão da cidade. “Entramos em contato com a prefeitura e gestão ainda possui uma ideia de era digital, de distribuir WI-FI, algo muito dos anos 90”, explicou, refletindo que o discurso parece não acompanhar as iniciativas que estão surgindo.

Até a publicação da matéria não obtivemos respostas do Governo do Estado.

Confira as iniciativas de Internet das Coisas aplicadas na cidade de Salvador:

Semáforos Inteligentes

Os semáforos inteligentes foram implantados em Salvador em maio de 2017. Funcionando em 45 pontos da cidade e abrangendo a área compreendida entre a Praça João Mangabeira, nos Barris, até o supermercado Makro, no Shopping da Bahia, são, ao todo, 88 semáforos que sincronizam o tempo de modo automático e se adequam ao fluxo do trânsito no momento. São mais de 60 quilômetros de fibra ótica interligando os semáforos inteligentes, criando a rede entre cada um dos mais de 80 semáforos e permitindo a comunicação e ajuste em todos os pontos instantaneamente.

A decisão de abrir ou fechar semáforos é realizada através da captação de dados, como o número de veículos de cada via. São 27 objetos controladores distribuídos em 46 interseções dos semáforos. Para monitorar esse funcionamento, a Transalvador criou o Núcleo de Operação Assistida (NOA) em 2015, que reúne profissionais para coordenar as ações que serão realizadas através dos dados que são colhidos com o semáforo inteligente, com as câmeras espalhadas na cidade e com o aplicativo NOA Cidadão, em que as pessoas reportam problemas nas vias de Salvador.

Monitoramento e prevenção de desastre

A Defesa Civil de Salvador (Codesal) tem um programa de monitoramento e prevenção de desastre, realizado em conjunto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Em Salvador, duas iniciativas estão sendo realizadas com aplicação de Internet das Coisas: sensores de deslocamento de terra foram instalados em encostas no bairro de Santo Antônio Além do Carmo e pluviômetros foram espalhados em diferentes pontos do município para medir o nível da precipitação e o deslocamento da chuva na capital.

São 100 sensores – espelhos que refletem raios infravermelhos – instalados localizados sobre o Túnel Américo Simas, que liga o Aquidabã ao Comércio, na falha geológica que separa a Cidade Alta da Cidade Baixa. Uma estação robótica emite o infravermelho através de um scanner que faz a varredura dos sensores a cada 25 minutos. Caso haja algum deslocamento de localização do sensor – ou se algum espelho não responder ao estímulo realizado – o sistema emite automaticamente um alerta para o centro de controle, avisando que provavelmente houve um deslocamento de terra no local.

Técnico conferindo posicionamento do sensor. Foto: Reginaldo Ipê.

Caso o controlador detecte um real risco de deslizamento de terra, ele emite um alerta por meio de uma sirene instalada no local, que irá avisar aos moradores do local o risco de deslizamento de terra. Aliado ao sensor, estão os pluviômetros instalados em 38 locais, medindo o nível de precipitação em cada região, além do deslocamento da chuva na cidade. São baldes que medem a quantidade de chuva e sensores instalados no dispositivo repassam as informações de 15 em 15 minutos para um centro da Codesal, que armazena esses dados e pode emitir alertas para a população para prever alagamentos e deslizamento de terras e até mesmo evitar catástrofes.

Rede de monitoramento do ar (RMAr)

Quem vê diversos totens espalhados em diversos pontos da cidade com a informação da qualidade do ar e de incidências de raio UVA e UVB muitas vezes nem imagina que aquela informação é prestada a partir da tecnologia de Internet das Coisas.

Estações de monitoramento do ar estão distribuídas pelo município captando informações como análise de gases e partículas, emissão de gases tóxicos, velocidade do vento, direção, quantidade de compostos químicos, radiação solar, pressão, umidade, entre outros, e transmitida automaticamente para a população através desses totens.

Centro de monitoramento do ar localizado na Avenida Paralela. Foto: Divulgação / Cetrel

Boletins também são realizados em um centro de processamento de dados e enviados para órgãos públicos. Em Salvador, os compostos analisados são os de Dióxido de Enxofre, Óxidos de Nitrogênio, Monóxido de Carbono e Ozônio. A rede de monitoramento foi implantada em 2010 e possível por conta de um acordo de cooperação entre o governo do estado, a Cetrel, a Braskem e a prefeitura de Salvador.

Sensores inteligentes nas redes elétricas

Através da implantação de sensores inteligentes para monitorar as linhas de distribuição de energia da Coelba, a companhia elétrica conseguiu reduzir o tempo de atendimento de uma notificação de quatro horas para 12 minutos. Os clipes instalados na rede monitoram e detectam, em tempo real, curtos-circuitos e falta de energia em pontos de Salvador.

Sensores utilizados na rede elétrica da cidade de Salvador. (Foto: Divulgação / Institutos Lactec).

Os sensores são instalados nas redes elétricas e conectados aos sistemas de controles instalados. São 400 conjuntos de sensores instalados que registra todas as notificações de anormalidades que ocorrem nos pontos e envia as informações em tempo real para o centro de consumidor da Coelba. O sensor também é utilizado para detectar se os famosos “gatos” – desvio de energia – estão sendo utilizados, através do monitoramento do balanceamento de carga no sistema.

O projeto foi executado por meio do Programa de Pesquisa & Desenvolvimento da Agência Nacional de Energia Elétrica em parceria com os Institutos Lactec e a fabricante Tecsys,

“Particularidade” de Salvador

Uma possível particularidade apontada pela pesquisa do Lab404 é que em Salvador a decisão humana ainda importa muito. “Operações que poderiam ser realizadas de forma autônoma  acontecem necessariamente por meio decisão humana”, disse Solarevisky. Por exemplo, quando os dados de deslocamento de terra são computados, o próprio sistema poderia disparar a sirene para alertar a população sobre o perigo de deslizamento. Mas, o que ocorre é que antes de disparar a sirene “um técnico precisa parar a automação, ver os dados e julgar se realmente é necessário”, falou o pesquisador. A particularidade não ocorre apenas no projeto de sensores das encostas – os sensores instalados na rede elétrica pela Coelba poderiam corrigir, por meio de um sistema, determinadas falhas. Ao invés disso, todo um protocolo é seguido e um técnico tem que se deslocar para resolver o problema apontado.

Privacidade e invisibilidade

Uma das questões abordadas por Solarevisky é que os sistemas implantados através de Internet das Coisas são “invisibilizados” para a população e da falta de privacidade. De alguma forma, alguns sistemas acabam vigiando e pegando informações particulares sem que a sociedade tenha conhecimento disso.
Um exemplo aplicado nas tecnologias disponíveis em Salvador são os sensores inteligentes utilizados nas redes elétricas pela Coelba. Há um projeto para que o clipe possa, futuramente, determinar em qual produto ou área da casa se está gastando mais energia. Dessa forma, o cidadão estaria sendo vigiado através dos dados de consumo de a energia dentro de sua casa. O uso desses dados também não fica muito claro. A companhia poderia, por exemplo, repassar essas informações para empresas e lucrar com isso, sem a total consciência dessa perda de privacidade do cidadão.

 

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