A potência da literatura negra

A potência da literatura negra

Escrita, leitura publicação e circulação, retratos de uma a resistência cultural

Jonas Lima e Rosana Silva

O que nos dizem nomes como os de Lima Barreto, Maria Firmina dos Reis, Luís Gama, Maria Carolina de Jesus? Em épocas diferentes, esses escritores negros deram voz à questão racial em seus escritos e seus textos foram rejeitados pelos críticos. A situação atual ainda é semelhante. A expressiva presença de escritores negros e negras no campo da literatura ainda é invisível para mercado editorial. Pesquisa mostra que dos 165 escritores que publicaram nas três principais editoras do país, de 1990 a 2004, apenas 2,4% são negros.

Ana Fátima dos Santos, educadora, mestre em crítica cultural, escritora, explica os desafios de ser uma escritora negra no campo da literatura na Bahia e no Brasil. “É desafio, é invisibilidade, é dúvida alheia sobre a sua potencialidade e mais do que nunca, é a minha certeza que sei fazer literatura. Tenho direito a voz e a ser ouvida/lida”. Enquanto escritora, Ana Fátima dos Santos publicou poemas em sites, revistas, projetos literários. Publicou contos e poemas no  Mulher Poesia: Antologia Poética Volume I e II (2016 e 2017), obra composta por mulheres poetas, como também no Cadernos Negros (Quilombhoje, vol. 37, 38 e 39, 2014-2016), desde 1978 a publicação tem dado visibilidade a literatura negra.

Ana Fátima dos Santos no lançamento da Antologia, Mulher Cogito (2017) (Foto: Arquivo pessoal)

Marcelo Ricardo é estudante de jornalismo e escritor (Foto: Editora Malê)

Já para o estudante de jornalismo e bacharel em humanidades, Marcelo Ricardo, o fato de ser negro, a necessidade do domínio da escrita e da oratória eram fatores que o distanciava do lugar do escritor. .  “O fato de ser negro sempre me distanciou de titulações muito poderosas. Lembro ter ouvido do Vagner Amaro, editor da Malê, que eu deveria me considerar escritor. Eu lembro como hoje o que aquilo representava. Não era só ter publicado, mas a empatia e o reconhecimento de um homem negro de minha produção”. Marcelo Ricardo já publicou na coletânea letra e tinta: Dez contos vencedores do prêmio Malê de Literatura, da editora Malê (2016), no projeto Enegrescencia, da editora Ogum’s.

A publicação dos livros pelos escritores negros é mais um desafio encontrado no campo literário, como explica Ana Fátima dos Santos. “Há dois anos luto para fazer minha primeira publicação autoral e as editoras não compram meu projeto ou não me dão orçamento para eu publicar com elas. Se não tenho nome forte no mercado editorial, não tenho “crédito”. Marcelo Ricardo também afirma que as possibilidades para publicação são difíceis. “É algo caro para a gente que é periférico. Ficamos às margens desse mercado”.

Este problema pode ser percebido quantitativamente. Numa pesquisa realizada pela professora da UNB, Regina Dalcastagné, que buscou traçar o perfil dos escritores e os personagens da literatura brasileira na contemporaneidade, em 258 obras publicadas de 1990 a 2004,  nas três principais editoras  brasileiras (Record,  Companhia das Letras e Rocco), foi constatado que 93,9% dos autores e autoras são brancos. Dos 1.495 personagens pesquisados,  97,8% são brancos e 7,9% são negros. A pesquisa aponta para a falta da diversidade da literatura contemporânea, como foco no mercado editorial, marcada pelo predomínio de uma única perspectiva social, que é branca e elitista.

A necessidade da circulação das obras tem feito os autores buscarem alternativas para além do mercado editorial. Fabrício Britto, leitor e escritor, explica que a explosão da internet possibilitou bastante a leitura da literatura negra por meio dos blogs, sites, redes sociais.  “Há também uma tradição do movimento de poetas que é a construção artesanal de livretos com poemas, contos e prosa, que são distribuídos e/ou comercializados nos coletivos, lanchas e quaisquer outros meios de transporte público”.  Ana Fátima diz que existem muitas maneiras de fazer  circular a literatura negra. “pequenos livretos, banner, entrevistas, bate-papos, tantas formas de colocar a escrita negra no mundo. Sem precisar gastar apenas um ou cinco nomes sempre. É necessário popularizar a escrita negra com o selo Livro. Preto também publica livro, e muito”.

Editora negra para autores negros

Para que as produções de escritores negros tenham maior visibilidade no campo literário, editoras foram criadas, em alguns estados brasileiros, dispostas a produzir e fazer circular obras da literatura negra.  Em Salvador, a editora Ogum’s tem desempenhado este trabalho.

Numa entrevista feita por e-mail, os editores Guellwaar Adún e Mel Adún,  da editora Ogum’s,  explicam que a negligência do mercado editorial  – relacionada às produções de autores e autoras negras –  foi um dos motivos para a criação da editora.   “Fomos provocados para essa iniciativa, de forma ainda mais veemente, no ano de 2013, o Brasil foi homenageado pela Feira do Livro de Frankfurt e ao escolher xs (sic) 70 escritorxs (sic)  que representariam a literatura brasileira, elegeram 68 brancos, um escritor negro, um autor indígena”.   Guellwaar Adún relata que  Marta Suplicy, na época respondia pela pasta da ministra da cultura,  justificou a escolha dos escritores não pela cor da pele, mas pela “qualidade literária”, afinal, as cotas raciais eram recentes no país e futuramente existiriam escritores negros qualificados. “A  ministra matou, em vida, autorxs  conhecidxs e estudadxs (sic) pelo público alemão em suas universidades, pois dezesseis escritorxs (sic)  foram traduzidxs (sic) na década de oitenta, a exemplo de Oswaldo Camargo, Miriam Alves, José Carlos Limeira, Cuti, etc. Naquele momento, entendemos que não poderíamos esperar, do epistemicida estado brasileiro, nenhuma iniciativa louvável. Arregaçamos as mangas. Estamos aqui”.

 “Autores negros reafirmam a cultura negra, reafirmam uma história ancestral que na maioria das vezes é apagada e negada”, Monique Reis, estudante de produção cultural.

Livro Xirê, de Eduardo Oliveira, lançado
em 2016 (Foto Arquivo Pessoal)

A editora Ogum’s publicou quinze livros nos gêneros crítica literária, poesia, romance, infanto-juvenil, memória e teorias.  A divulgação das obras acontece por meio das redes sociais, do site (www.editoraogums.com), onde há uma loja virtual, além das ações realizadas pelo coletivo artístico e literário Ogum’s Toques Negros. “O custo da divulgação é extremamente alto. Contudo, outras possibilidades de ampliarmos a visibilidade de nossas obras estão sendo produzidas e em breve entrarão em vigor”.  O selo Traduzindo no Atlântico Negro também possibilitará a exposição das publicações em outras línguas, como o inglês.

A busca do público pela literatura negra é perceptível por meio da movimentação no site da editora Ogum’s.  “Atribuímos ao potencial ético-estético de nossos livros e autorxs, (sic) mas também ao próprio público leitor que, compreendendo a importância da existência dessa iniciativa, tem divulgado entre seus pares através de suas listas de email, redes sociais, blogs, defesas de TCC’s, dissertações, teses”, enfatiza Guellwaar Adún.

Literatura negra para quem consome

Por outro lado, os leitores têm papel importante na valorização da literatura negra, como afirma Monique Reis, estudante de produção cultural. “Autores negros reafirmam a cultura negra, reafirmam uma história ancestral que na maioria das vezes é apagada e negada. Também reforçam a importância da representatividade de uma identidade o que para nós negros é fundamental principalmente se tratando de crianças”. Monique diz que após ingressar na Universidade, sua atitude mudou diante da literatura, após conhecer escritores e escritoras negros. “Daí em diante a leitura passou a ser por afinidade, especialmente nos últimos 2 anos, ela se faz ainda mais presente na minha vida”.

Já o estudante Fabrício Britto destaca a dificuldade de encontrar livros nas lojas e livrarias. Para ele, a literatura negra não está apenas reduzida às páginas de livros. “Eu diria, inclusive, que essa dimensão da oralidade/literalidade, de não se reduzir às páginas de um livro, constitui-se como mais uma característica da literatura negra. A literatura negra, portanto, é performática, vivencial e ancestral.”

Share