Ela faz cinema e café

Fabíola Aquino conta sobre os caminhos que a levaram para o cinema documental.

Caio Sá Telles

Fabíola e Seu Pascoal da Farinha na feira de São Joaquim | Crédito: Divulgação

Tarde comum de mais uma sexta-feira brancaem Salvador. Aquelavontade costumeira de regar a conversa com café. À mesa de um dos bares localizados no bairro 2 de Julho, centro antigo da cidade, o pedido é feito. “Sim, claro que sai um menorzinho. O caso é que já tá frio. Foi passado às sete da manhã”, lamenta o garçom. Como mora ali perto, quebrando a esquina e já na porta de casa, Fabíola promete uma rodada de café fresco passado na hora. A essa altura, um convite irrecusável.

Enquanto a água espera pela fervura no fogo, a dona da casa abre as janelas para melhorar a ventilação. Quem controla esse vento que entra na sala é quem também toma conta de sua cabeça. As imagens de Santa Bárbara, padroeira dos bombeiros, espalhadas pelas estantes e paredes do apartamento revelam a fé sincrética de Fabíola. Por detrás da santa branca, uma mão preta ergue aquela mesma espada e cospe tempestades. “Eu sou de Iansã”, ela vibra.

Fabíola Aquino Coelho nasceu em Caculé, interior da Bahia. Ainda aos 14 anos, partiu de sua cidade natal com destino a Salvador para dar continuidade à sua formação escolar básica. Prestou vestibular para Pedagogia e foi aprovada. Em pouco tempo, no entanto, percebeu que esse definitivamente não era o seu caminho e abandonou o curso superior por completa falta de vocação. Foi nessa mesma época que ela passou a trabalhar com produção em cultura no setor comercial de um jornal da cidade.

“O período no jornal ampliou meu contato com as atividades de produção e me levou a consumir muita cultura”, relembra Fabíola. Enquanto aprimorava seu conhecimento autodidata em produção cultural, ela decidiu se inscrever em mais um vestibular. Dessa vez, Fabíola foi aprovada para o curso de Jornalismo oferecido pela Faculdade 2 de Julho,em Salvador. Aolongo da graduação, participou de inúmeras atividades formativas em festivais de cinema ministradas por nomes como Evaldo Morcazel e Geraldo Sarno.

Trajetória – Em 98, Fabíola trabalhou como assistente de produção no Três Histórias da Bahia. O projeto, que marcava a retomada do cinema no estado, era composto por três filmes de média-metragem: Agora é Cinza, Diário do Convento e O Pai do Rock; dirigidos respectivamente por Sérgio Machado, Edyala Yglesias e José Araripe Júnior. Trabalhando também na produtora baiana Berimbau Filmes, ela adquiriu ainda mais experiência e decidiu concluir seu curso superior com a realização de um documentário.

Hip-hop com Dendê foi o primeiro projeto independente de Fabíola como diretora de cinema. O curta documental, com duração de 15 minutos, investiga a combinação entre o hip-hop norte-americano e as culturas periféricas de Salvador. A chegada do movimento à cidade foi de uma enorme contribuição social. Através dele, a juventude negra marginalizada aprendeu novas linguagens de criação artística – o rap, o graffiti e o break – que passaram também a lhe servir como mecanismos de reivindicação e denúncia.

A ideia para a filmagem de um documentário sobre o movimento soteropolitano de hip-hop surgiu durante o show de MV Bill na Concha Acústica do Teatro Castro Alves em 2005. “Vi a Concha lotada para assistir ao show de um cara sobre quem eu jamais tinha ouvido falar. Toda uma população da cidade que eu também jamais pensaria em conhecer justamente por ser moradora do centro e não andar tanto pela periferia. Fiquei encantada com esse movimento popular tão forte”, conta fascinada a diretora.

O curta-metragem foi exibido em mais de trinta festivais de cinema e marcou sua entrada definitiva para a produção audiovisual. Engajada nas discussões sobre as políticas públicas destinadas à sua área de atuação, Fabíola trabalhou na Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Dimas) e em alguns projetos pontuais como o DOC TV CPLP, programa desenvolvido em 2009 para fomentar a produção e a teledifusão de documentários na comunidade de países de língua portuguesa.

Através do Laboratório Olhar-Documenta, atividade proposta pelo IV Panorama Internacional Coisa de Cinema, Fabíola dirigiu mais um curta-metragem documental intitulado O Jardim. Em aproximadamente três minutos, o músico Zoião, que hoje mora nas ruas do centro de Salvador, relembra sua juventude vivida na Caculé dos anos 70. “No momento em que o Youtube cria o Youtube Brasil, colocamos esse vídeo na internet. São mais de quarenta mil visualizações por causa desse boom inicial”, declara.

Primeiro longa – Em 2011, Fabíola trabalhou na equipe de Coleção Invisível, primeiro longa-metragem de ficção do francês Bernard Attal. “Decidi que, naquele mesmo ano, inscreveria finalmente um antigo projeto em editais de incentivo à produção audiovisual”, revela a diretora. Assim, o seu primeiro documentário em longa-metragem tornou-se possível. Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo foi contemplado com apoio da Demanda Espontânea do Fundo de Cultura e da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

Com 52 minutos de duração, o filme intercala sequências de depoimentos e imagens de arquivo que apresentam mais uma narrativa sobre o intricado passado da feira de São Joaquim. “Trazemos a história de Água de Meninos. Se hoje a chamamos de São Joaquim, é porque temos uma história lá atrás. Temos uma tradição de feiras à beira-mar que não pode ser negligenciada”, argumenta. Para quem ainda não assistiu ao novo documentário de Fabíola, poderá conferi-lo dia 30 de julho no Cine Solar Boa Vista.

“Concluir cada projeto é um desafio. Menos de 5% do cinema nacional conseguem ir para as salas de exibição. Estou falando em mais de 80 longas-metragens por ano”, desabafa a diretora. Agora, Fabíola busca meios alternativos para a distribuição de seu documentário e desenvolve a pesquisa para seu próximo projeto. Caculé – O Quilombo de um Homem Só contará a história sobre as origens de sua cidade natal e sobre o modelo de gestão pública que a transformou em referência nacional de sustentabilidade.

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