Novo Cinema Novo

O documentário Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo, dirigido por Fabíola Aquino, resgata a história do mais importante centro de abastecimento popular de Salvador.

Caio Sá Telles

Imagem da Feira de Água de Meninos | Filme A Grande Feira, 1961

Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo, primeiro documentário em longa-metragem da diretora baiana Fábiola Aquino, resgata uma das passagens mais intricadas da história recente de Salvador. As discussões sobre as causas do incêndio criminoso que destruiu a feira de Água de Meninos, antigo centro de comércio popular que deu origem à atual feira de São Joaquim, são retomadas no filme.

Álvaro Queiroz, produtor do filme Sol sobre a Lama (1964), realizado por Alex Viany e Palma Netto, foi quem despertou o interesse de Fabíola. “Quando o conheci, fiquei encantada. Comecei a investigar toda aquela história da feira que eu passava a descobrir através das conversas que tinha com ele”, relembra. Queiroz também já foi feirante em Água de Meninos. Aos 12 anos de idade, chegou a trabalhar com venda de água potável para os demais comerciantes da feira, pois o espaço desde aquela época já carecia de saneamento básico.

Os primeiros registros da pesquisa de Fabíola sobre Água de Meninos e São Joaquim foram realizados em parceria com a produtora Apus Filmes. As entrevistas com os atores Antonio Pitanga e Wilson Mello, além – é claro – do produtor Álvaro Queiroz, acabaram dando origem ao documentário A Feira – Patrimônio Imaterial, curta-metragem dirigido por Fabíola. O trabalho, cuja estrutura também incorporou imagens de arquivo sobre as feiras, chegou a participar do XIV Festival Nacional 5 Minutos de 2011.

Olhar reenquadrado – “Comecei a frequentar São Joaquim por conta de minha relação com o candomblé. É lá onde encontro os artigos específicos para algum ritual de limpeza ou oferenda, por exemplo”, revela Fabíola. Como pesquisadora, foram as conversas intermináveis com Álvaro Queiroz e as produções do Cinema Novo que despertaram o seu interesse pela história daquele espaço e que, por consequência, reenquadraram o seu olhar sobre ele. “Nesse sentido, sim, foi o cinema que me conduziu à feira”, completa.

Em Sol sobre a Lama e A Grande Feira, realizado por Roberto Pires, em 1961, havia uma denúncia recorrente de que Água de Meninos seria vítima de algum incêndio criminoso. Esses rumores, no entanto, também faziam parte de uma preocupação real. A precariedade das instalações na feira acabava provocando incêndios pontuais que eram facilmente debelados. Porém, muito próximos dali, estavam instalados os tanques de armazenamento de combustível sob a administração da empresa Esso Brasileira de Petróleo Ltda.

“O perigo era que esses pequenos focos de incêndio alcançassem os tanques de gasolina e uma tragédia ainda maior fosse enfim deflagrada”, conta Fabíola. Em 5 de setembro de1964, afeira de Água de Meninos foi completamente destruída pelo fogo. O governo militar não foi capaz sequer de oferecer um serviço satisfatório de perícia para levantar as causas técnicas do incêndio. “Essa questão, por muito tempo, manteve-se velada. O filme, entretanto, traz à tona essa memória”, ressalta a diretora.

Nova reforma Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo assume um valor histórico páreo ao dos filmes A Grande Feira e Sol sobre a Lama. Ele documenta os últimos dias de São Joaquim antes da transformação – não criminosa dessa vez, porém igualmente violenta – empreendida por um novo projeto de requalificação do espaço. As obras foram iniciadas em janeiro de 2012 pela Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (Setur) através da Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder) e avançam a passos de tartaruga.

Historicamente, empreendimentos como esse acabam privilegiando os interesses privados e secundarizando os benefícios à população. Via de regra, os projetos governistas de reformas sanitárias são quase sempre acompanhados por reformas de ordem econômica, social ou étnica. “Acho cruel querer que os feirantes se mantenham sem as condições mínimas de drenagem e saneamento. Por outro lado, qual tipo de higienização está sendo feita com a feira?”, questiona Fabíola.

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